• Uma viagem inevitável

    O agronegócio brasileiro tem trajetória brilhante, mas para manter esse padrão não podemos ficar alheios a acordos internacionais.

    A economia e o comércio mundiais passam por ampla transformação. A globalização dos mercados e a interconexão das cadeias produtivas são os pilares desse processo –ao que o Brasil não está alheio, mas ainda está aquém de seu potencial de participação.

    Nossa formação, que poderíamos chamar de cultura do subdesenvolvimento, legou ao país uma atitude defensiva em relação aos países desenvolvidos, má herança de que nos empenhamos em nos desfazer.

    É inegável que ao longo de quase todo o século 20 crescemos muito, mesmo sem o apoio do comércio externo, pois o interno bastava. Desde então, o Brasil e o mundo mudaram radicalmente, sobretudo nos últimos 30 anos.

    Na conjuntura econômica que atravessamos, a tendência natural é nos assustar com uma longa lista de problemas que reclamam solução urgente. Mas a experiência e a sabedoria nos ensinam que querer enfrentar todos os problemas de uma só vez resulta em não resolver nenhum deles. A saída é fazer escolhas –e mudar nosso setor externo é certamente uma delas.

    Os mais realistas nos ensinam que tanto o gasto público como o consumo das famílias estão esgotados como fonte de crescimento econômico. Para crescer dependeremos do investimento privado e das exportações. Em nosso tempo, nenhum país conseguiu chegar a níveis altos de renda por habitante sem integrar-se ao comércio internacional de bens e serviços.

    O Brasil está longe de esgotar seu potencial nesse setor. Temos o sétimo PIB do mundo, mas, em valor de exportações, somos o 25º. Quanto às importações, nosso coeficiente em relação ao PIB é de 13,5%. Para mudar essa realidade, será preciso rever conceitos.

    O comércio internacional nunca foi território de amenidades. Todos os países aspiram a uma posição forte e dominante. Ultimamente, porém, está se formando uma consciência de que os conflitos devem ceder lugar a parcerias.

    Elas se apresentam como Acordos Preferenciais de Comércio, arranjos regionais destinados a facilitar e incrementar o intercâmbio sob a forma tradicional de redução de barreiras tarifárias e não tarifárias e por meio de um esforço de harmonização de normas e regulamentações para aprimorar o fluxo de bens, serviços e investimentos.

    Quase todas as economias estão vivendo em regime de baixo crescimento interno, por isso o apelo à demanda externa e às exportações.

    Essas parcerias até há pouco pareciam mero discurso político, mas o que estamos vendo é seu rápido progresso, vencendo obstáculos que pareciam insuperáveis. Nesse quadro, o Brasil já constatou que precisa reciclar-se.

    Em estudo recente, produzido pela Fundação Getúlio Vargas, constatou-se que a adesão do Brasil a esses acordos pode resultar em aumentos expressivos de nossas exportações: de 20% para a União Europeia, de 10% para os Estados Unidos e de 12% para a China.

    O agronegócio brasileiro tem trajetória brilhante, garantindo há décadas o superavit da balança de pagamentos e nossas reservas cambiais. Mas para que esse padrão não se comprometa, não podemos ficar – e não estamos – alheios a acordos como os que se articulam no Pacífico e no Atlântico.

    Por outro lado, é preciso que a indústria se integre às cadeias globais de suprimento, que são a forma contemporânea de funcionamento desse setor em âmbito global. Ela terá meios que facilitarão esse processo, pois grande parte é formada de multinacionais que têm capital e estrutura para a competição global.

    Ainda de feitio autenticamente doméstico, a indústria brasileira vai aumentar sua competitividade se tiver acesso a bens de capital e insumos importados de qualidade e baixo preço. Aumentar a produtividade no setor industrial e no de serviços é essencial –e a abertura para o exterior é o melhor caminho.

    O Brasil, em suma – e aí não apenas o governo, mas o setor produtivo e a sociedade –, começa a tomar consciência de seus interesses estratégicos, sem se iludir por interesses de curto prazo. Isso não exclui nossos parceiros do sul, mas abre preciosa oportunidade para que embarquem conosco nessa viagem, que não há como ser evitada.

    Artigo publicado na Folha de S. Paulo – Tendências e Debates – em  02 de setembro de 2015.

  • Classe Média Rural: os passos para ampliar a renda no campo

    Existem produtores rurais em todos os estratos socioeconômicos. Da classe A à classe E, segundo as medições do IBGE. Porém, algumas dessas pessoas foram classificadas de maneira incorreta, por diversas razões, desde motivos de mercado e transporte ao clima. Isso não significa que eles se enquadram sempre na classe mais baixa.

    Com a assessoria do Eliseu Alves, primeiro presidente da Embrapa no país, estima-se uma meta para que 800 mil produtores estejam enquadrados na classe média pelos próximos 4 anos. O MAPA pretende aumentar esse número, com foco no grupo que ganha abaixo de dois salários mínimos.

    Primeiro existe a necessidade de assistência técnica e extensão rural, isso é o fio condutor – tecnologia, ensino e conhecimento. A segunda questão é a qualificação profissional. Com essas medidas, e estimulando o associativismo e o cooperativismo, esperamos que o trabalhador rural tenha uma renda melhor. Outro ponto é estender a cobertura do crédito rural, que é importante, mas sem acesso a assistência técnica e conhecimento talvez o produtor não produza bem.

    Por último existe o propósito mais complexo deste desafio que é a necessidade de corrigir as imperfeições de mercado. A Ministra Katia Abreu e técnicos do MAPA estão acabando de desenvolver o modelo para ser apresentado e que planeja oferecer a independência total para esses produtores. O objetivo é que eles decidam suas vidas, mas não de forma mecânica.

    A Conab será um instrumento a serviço do contribuinte, porque este produtor é contribuinte. É um assunto complexo para se debater em redes sociais, mas a Ministra segue com o propósito de informar a sociedade e o público sobre o trabalho que ela tem feito no MAPA, que é dedicado a melhorar a vida dos menos assistidos e também incentivar que os interessados se envolvam nesse assunto. Vocês poderão acompanhar essa evolução da classe média rural brasileira. Uma vida melhor para todos é a minha meta de Katia Abreu neste ministério.

  • Aumento da safra e acesso a crédito rural trazem boas perspectivas para o PIB Agro 2015

    Mais uma vez o agronegócio brasileiro tem mostrado que é uma das forças motrizes do país. O 4° levantamento de grãos divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) nesta quinta-feira, 09/01/2015, mostrou um aumento de 4,5% na safra de 2014/2015. São 8,75 milhões de toneladas a mais que o registrado no período anterior. A cultura de soja tem destaque com aumento de 11,5% na produção, apesar das condições climáticas adversas, embora seja importante ressaltar que o total de área de plantio de grãos aumentou aproximadamente 766 mil hectares. Esse incremento no total da área produtiva nacional representa a confiança do agricultor no cenário para o agronegócio brasileiro.

    Outra boa novidade para o ano agrícola de 2014/2015 é que as operações de crédito nos primeiros seis meses do período já são recordes para o período. Os agricultores familiares, por exemplo, obtiveram créditos para investir em tratores, colheitadeiras, sistemas de armazenagem, recuperação de pastagens e ações de preservação ambiental. As mulheres agricultoras fizeram mais de 306 mil contratos para investimento em atividades agrícolas.

    Esses dados mostram que o PIB Agro de 2015 tem chances de ser melhor que o de 2014. Os produtores possuem acesso ao crédito, a demanda por alimentação é grande e não fica restrita aos limites do país. A Ministra Kátia Abreu deixou claro que será grande o esforço do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para agilizar ações estruturais com outros órgãos do governo e manter a situação positiva para o agronegócio.

  • O campo e a vocação para o protagonismo econômico

    Com um cenário econômico complicado em 2015, o agronegócio terá um papel fundamental na performance da economia brasileira nos próximos 12 meses. Com uma participação no PIB que normalmente se aproxima dos 23%, os produtores e setores ligados ao campo estão preparados para contornar a conjuntura atual.

    Segundo a Sociedade Nacional da Agricultura, o Brasil deve bater novo recorde na safra de grãos este ano. A safra anterior registrou 200 milhões de toneladas de grãos. A evolução no volume da safra se deve ao aumento da área plantada no Brasil e também à produtividade do setor. Já na pecuária, a expectativa do setor é um aumento de 18% nas vendas de carne bovina para o mercado internacional, com foco majoritário na China.

    Em entrevista recente, a Ministra Kátia Abreu declarou que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento vai intensificar as ações de capacitação e auxílio ao pequeno produtor, além de garantir estrutura e apoio para que mais empresários possam exportar carne, aumentando assim a distribuição das receitas internacionais que entram no Brasil, além de oferecer aos criadores de gado de corte maiores opções no abate.

  • O que houve de novo com o Brasil

    O Brasil orgulha-se hoje de ser uma economia estável e forte, que consegue crescer de modo sustentável a taxas elevadas e ao mesmo tempo distribuir renda, incorporando largos contingentes de população ao mercado de consumo e a padrões mais civilizados de bem-estar material. Olhando para trás, para tantas décadas de instabilidade, de surtos breves e logo frustrados de crescimento, temos de reconhecer que vivemos uma grande transformação.

    O que tornou possível essa transformação? Tivemos vários momentos de crescimento, que não duravam muito. Após poucos anos, o crescimento provocava inflação, pois a oferta interna, especialmente de alimentos, não era capaz de acompanhar o aumento da demanda induzida pelo crescimento da renda. Mais grave era o outro problema, o cambial.

    Diante da inflação sem controle e do desequilíbrio cambial, a única política possível era conter o processo de crescimento, para aliviar as pressões sobre os preços e sobre o déficit externo. Assim, voltávamos à estagnação econômica, embora a população continuasse crescendo e a imensa maioria vivesse na pobreza.

    Para crescer sem interrupções seria necessário superar o limite de nossa capacidade para importar. Financiar indefinidamente o déficit cambial com financiamento externo não seria sustentável. Por termos tentado este caminho, incorremos em várias crises de endividamento e chegamos à moratória. Era preciso encontrar um meio realista de elevar a receita cambial.

    Como sabemos hoje, no Brasil só a agricultura e a pecuária podiam realizar essa tarefa. Mas ninguém pensava nisso seriamente. Afinal, a produção rural brasileira crescia pouco e não éramos, de fato, até 1970, sequer capazes de atender ao abastecimento interno. Além do mais, a sabedoria convencional de então ditava que o desenvolvimento econômico significava o aumento da produção industrial e o encolhimento relativo da produção rural.

    Apesar disso, a partir dos anos 70, teve início uma silenciosa revolução no campo brasileiro. Novas gerações de produtores rurais começaram a emergir, muitos deles abrindo novas fronteiras agrícolas ou transformando os modos de produzir nas fronteiras já estabelecidas. Esses novos agricultores romperam com as formas tradicionais de produção, apropriaram-se do conhecimento acumulado nas universidades rurais e na nova Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e trouxeram para a produção rural a disposição de assumir riscos e a compulsão do crescimento.

    A ação destes novos empreendedores transformou em pouco tempo a produção rural brasileira, tornando-a em poucas décadas a segunda maior do mundo em escala e diversidade de produção e a primeira e única grande agricultura em área tropical.

    Os números dessa revolução são impressionantes. Em 1965, antes do início desse processo, a produção brasileira de grãos era de 20 milhões de toneladas, para uma população de 80 milhões de habitantes, portanto, uma produção de 250 kg de grãos por habitante. Em 2008 a produção de grãos chegou a 144 milhões de toneladas, para uma população de 190 milhões de habitantes, o que representa uma produção per capita de 758 kg. A produção total cresceu 7 vezes, mas a área de plantio, que era de 21 milhões de hectares em 1965, passou para apenas 48 milhões de hectares em 2008, apenas 2,5 vezes mais. A produção de carnes, em 1965, era de 2,1 milhões de toneladas, o equivalente a 25 kg por habitante por ano. Em 2006 a produção alcançou 20 milhões de toneladas, o equivalente a algo como 100 kg por habitante/ano. A produção total aumentou dez vezes, mas as áreas de pastagens cresceram apenas 15%.

    Esses gigantescos aumentos de produção e de produtividade mudaram a história da economia brasileira. Essa agricultura altamente produtiva e de grande escala conquistou os mercados externos e passou a gerar grandes superávits no balanço de pagamentos, dada a sua pequena dependência de importações. Entre 1994 e 2009, o agronegócio acumulou um saldo comercial com o exterior de US$ 453 bilhões. No mesmo período, o saldo comercial total do Brasil foi de US$ 255 bilhões. Significa que, sem a contribuição das exportações do agronegócio, o Brasil teria incorrido num déficit comercial de US$ 198 bilhões, praticamente o valor das reservas cambiais do País no final do ano passado. Não fora a contribuição do agronegócio, o País estaria vivendo gravíssima crise cambial e a história do nosso crescimento recente teria sido muito diferente.

    Outro efeito dessa revolução no campo foi a persistente queda no custo da alimentação no mercado interno. Os professores José Roberto Mendonça de Barros e Juarez Rizzieri mostraram, em pesquisa, que o custo no varejo de uma ampla cesta de alimentos na cidade de São Paulo caiu pouco mais de 5% ao ano, em termos reais, entre 1975 e 2005. Uma queda dessa dimensão só foi possível pelos aumentos impressionantes da produção e da produtividade no campo. E, em decorrência, as classes de renda média e baixa não apenas puderam consumir mais e melhores alimentos, como elevaram seu poder de compra de produtos industriais. Assim, o efeito da queda dos preços agrícolas é mais importante que as transferências de renda para explicar a melhoria do padrão de vida das populações mais pobres.

    O Brasil que se desenvolve hoje e se projeta no mundo como uma economia dinâmica e moderna é um País construído a partir da agricultura e da pecuária. E continuará sendo, no futuro, sem estar por isso condenado ao atraso e à pobreza, como vaticinavam no passado. Mas para isso é necessário que o Brasil valorize o agricultor e o pecuarista, que foram os agentes dessas transformações, dando-lhes o realce merecido e poupando-os dos preconceitos que sobrevivem às evidências da realidade.

    Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo em 26 de julho de 2010