• “Eu não mudei de lado”, diz Kátia Abreu em entrevista

    Veja abaixo a íntegra da entrevista concedida pela senadora às Páginas Amarelas da revista Veja

    “Eu não mudei de lado”

    A senadora explica por que apoiou Dilma Rousseff até o fim, mesmo contrariando seu partido e sua base eleitoral
    Por Thaís Oyama

    Desde muito antes de ser chamada pelo PT de “ruralista reacionária” e “rainha da motosserra”, a senadora Kátia Abreu já era boa de briga. Aos 25 anos, quando seu marido, fazendeiro, morreu em um acidente de avião, ela ignorou o conselho dos irmãos para abrir “um negócio de mulher” e assumiu a administração das terras que ele deixou, no Tocantins. Seis anos depois, era presidente do sindicato rural da segunda maior cidade do estado. Em 2008, já senadora pelo DEM, foi eleita presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a primeira mulher a ocupar o posto. No impeachment de Dilma, de quem foi ministra e se tornou melhor amiga, Kátia voltou a comprar briga, mas, desta vez, cerrando fileiras com petistas. Do processo, saiu rompida com a CNA, criticada por produtores rurais e ameaçada de expulsão por seu partido, o PMDB, agora no poder. Nesta entrevista, ela explica as razões pelas quais ficou com Dilma até o fim, fala dos erros e ressentimentos da agora ex-presidente e diz que os últimos meses lhe ensinaram “que não existem esquerda e direita, mas problemas a ser resolvidos e causas pelas quais vale a pena lutar”.

    Ao apoiar a ex-presidente Dilma até o fim, a senhora ficou isolada no PMDB, perdeu a presidência da CNA e até parte do apoio do setor agrário. Por que sustentou uma posição com tantos prejuízos políticos?
    Isso tudo pode até ter acontecido, mas fico indignada quando as pessoas dizem: “Ela está fazendo isso porque é amiga da Dilma”. Primeiro, não defenderia ninguém em quem não acreditasse, mesmo sendo amiga. Segundo, eu não era amiga da Dilma, não fiz parte da história dela, não fui presa com ela. O que aconteceu foi que ela, como presidente, me deu liberdade e meios para fazer no Ministério da Agricultura tudo o que sempre sonhei. Ela me conquistou pelo atendimento que deu ao meu setor, a começar pela aprovação do Código Florestal, que pôs fim a dezessete anos de desespero dos produtores rurais, criminalizados, humilhados. A amizade começou com uma relação pragmática, e cresceu a partir daí. Depois, o mandato de senadora e o mandato da CNA fazem parte da minha vida, mas não são minha vida. Sou mãe, mulher, tenho netos, amigos, tenho valores dos quais não abro mão nem sob tortura.

    Há quem a acuse de mudar de lado para ficar com Dilma.
    É engraçado. O meu partido pertencia à base aliada do governo. Na reeleição de Dilma, o senhor Romero Jucá e o senhor Geddel Vieira Lima apoiaram quem? Aécio Neves. O meu partido é também o partido do vice-presidente da República. Mais: os que estão agora usufruindo o governo de Michel foram os que brigaram para que ele não fosse vice. E eu é que mudei de lado? A opinião pública e a imprensa também têm de decidir o que quer de nós, políticos. Se a pessoa não é ética e muda de posição, pau nela. Se é ética e mantém sua posição, é burra. Fui chamada por um jornalista de politicamente burra. “Você se destruiu, você cometeu suicídio político.” Veremos. A história dirá.

    A senhora vai continuar no PMDB?
    Não vou fazer movimento para ficar nem para sair. Quero ver se a democracia interna do PMDB funciona ou é da boca para fora. Não sou obrigada a fazer o que o PMDB acha que tenho de fazer. Mesmo porque não mudei de lugar. Não fui apoiar outro presidente, não desobedeci à convenção nacional, como o senhor Jucá, o senhor Geddel, os Picciani e companhia limitada, que apoiaram o Aécio. Então, por que só comigo? Quero ver se são democratas. Durante esse tempo, não fiz nenhum ataque pessoal ao Michel ou ao partido. Só respondi mal ao Jucá porque ele falou que eu iria virar líder do MST. Eu disse que ele já era mundialmente conhecido como líder do movimento para abafar a Lava-Jato. Isso saiu no Le Monde. Então, vou aguardar para ver o que o partido vai fazer, se vai me expulsar.

    A senhora acreditou em algum momento que seria possível reverter o resultado do impeachment?
    Acreditei. Tinha muita gente insatisfeita. Até segunda-feira, cheguei à noite em casa e tínhamos os 29 votos, todos conversados, com Dilma, comigo e com outros.

    A ex-presidente acreditava?
    Menos que nós, era mais cética.

    Ao trabalhar para preservar os direitos políticos de Dilma, a senhora pode ter criado a brecha para beneficiar outros políticos enrolados, como Eduardo Cunha. Isso é bom?
    Você acha justo dizer: “Não vou dar esse salvo-conduto a você porque senão fulano vai sair beneficiado”? Aí, eu enterro você por causa de fulano? Isso não é justo. Depois, cabe aos deputados avaliar o caso de Cunha na hora de votar a cassação. É uma questão de consciência de cada um. Além disso, Cunha será enquadrado na Lei da Ficha Limpa e, de qualquer maneira, não poderá ser candidato.

    Dilma quer se candidatar?
    Um dia, brinquei com ela: “Quer ser candidata no Tocantins? Eu teria o maior prazer em apoiá-la para concorrer a senadora, a deputada”. Ela disse: “Kátia, nunca mais”. Mas, quando apresentei o destaque para votar sobre os direitos políticos, não pensei em candidatura de Dilma. Só achei que era uma pena muito forte para a biografia dela. A preservação dos direitos políticos ameniza isso.

    Mas a senhora alegou questões práticas em seu discurso.
    Porque elas existem. Dilma vai fazer o que da vida? Onde ela vai trabalhar? Ela pensa em dar aula em faculdade, aqui, lá fora. Ela me disse: “Acho que vão me convidar”.

    Que conselhos a senhora gostaria que ela tivesse ouvido?
    O de se dedicar um pouco mais à política. Ela deveria ter dialogado mais. Às vezes, você tem de dizer “não”, mas, se você conversa mais, acaricia mais acaba compensando esse ”não’: Políticos são assim. Agora, é preciso lembrar que ela conviveu bem com o Congresso no primeiro mandato. Portanto, ela não deveria ser tão ruim assim. A grande diferença para o segundo mandato se chama Eduardo Cunha. Aí vão dizer: “É muito simples pôr toda a culpa nesse rapaz”. E eu direi: “Só quem convive com ele sabe do que ele é capaz’: Ele é hediondo. Hediondo.

    É de quem Dilma mais se ressente?
    A pessoa de quem ela mais se ressente é Michel. Ela me disse: “Kátia, eu confiei nesse moço, ele era o meu segundo! Eu o coloquei na coordenação política. Como ele pode dizer que era um vice ‘decorativo’? Mais que isso, só se eu desse o meu lugar para ele, que era o que ele queria e eu não estava entendendo”. No começo, ele estava mais contido. Eu mesma disse a ele: “Michel não mova um dedo para esse impeachment andar. Se tiver de acontecer, vai acontecer”. Ele se conteve até a apresentação do projeto Uma Ponte para o Futuro, do PMDB. Aquilo não foi um conjunto de orientações econômicas para ajudar o governo da Dilma, como disseram. Foi a senha para o impeachment. A partir dali, ele partiu para a conspiração.

    É isso que Dilma acha?
    Sim. O Michel foi a única pessoa de quem eu a ouvi fazer esse tipo de comentário.

    Mas ele não foi o único a trai-la.
    Mas foi quem mais a decepcionou.

    Em que momento a senhora viu Dilma mais abatida?
    No resultado da Câmara, quando terminou a sessão. Ela esperava ganhar lá. Todos nós esperávamos. O povo que votou contra ela estava na casa dela no dia anterior! Por aí dá para ver que impeachment é esse. Dá para ver a convicção de boa parte dos que votaram contra ela.

    A senhora foi ministra da Agricultura de Dilma. O que uma representante da direita aprendeu no governo de esquerda?
    Aprendi a ver as coisas de um ponto de vista menos limitado, porque política pública é para todos. A direita pensa que o povo só quer lhe tomar as terras. A esquerda pensa que os produtores só pensam em dinheiro. Ganhar dinheiro é importante, o direito de propriedade é importante. Mas existem outras bandeiras que precisam ser observadas. A questão ambiental, por exemplo. Alguém hoje tem coragem de negar isso? Isso é bandeira de esquerda por acaso?

    Não é?
    A disputa ideológica atrapalha muito. Enquanto a Marina Silva era ministra, o que aconteceu com a questão ambiental? Os produtores não aceitavam falar do assunto, porque achavam que era implicância dela. Ela transformou a questão em ódio para nós. Quando a lzabella Teixeira entrou, começamos a entender que do lado de lá também havia questões importantes a considerar. Acho que colaborei bastante para isso. Agora, há radicalismo dos dois lados. No setor agrário, o radicalismo é forte com relação ao direito de propriedade. Tanto que, quando um único cidadão disse no Palácio do Planalto que iria invadir terras e a Dilma o cumprimentou, para eles, os produtores rurais, foi como se ela tivesse dado o aval para a invasão. Foi a leitura que fizeram. Uma única frase e tudo o que Dilma fez para os produtores se esvaiu. E tentaram me transformar em “inimiga do setor”.

    A senhora já declarou que gostaria de ser presidente da República. A ideia continua no seu radar?
    Hoje o horizonte está tão difícil. É preciso esperar baixar a poeira, não dá para ser candidata de si mesmo. Dilma saiu da fase de alfabetização na política para o doutorado. Itamar estava lá quieto e o titular foi impichado. O outro era metalúrgico, sem estudo, pobre… Já disseram que presidência é destino. Eu adoraria participar de um debate nacional, independentemente de resultados.

    Como Lula, a senhora não nasceu rica.
    Eu era de classe média baixa. De comer arroz, feijão e tomate. Carne era pouca. Meu pai se separou da minha mãe quando eu tinha 10 anos. Éramos três filhos, mais meu avô e minha avó. Minha mãe, sozinha e sem profissão, foi fazer vestibular. Fez curso de psicologia, fez cortina, fez roupa de criança. Uma guerreira, ela me inspira muito.

    A senhora tem um fraco por mulheres fortes, não?
    É verdade. Tenho uma identificação grande com a Dilma, inclusive na braveza. Nós somos bem parecidas, da mesma estirpe.

    A senhora foi considerada uma ministra da Agricultura competente. Diria que Dilma foi uma presidente competente?
    Em 2014 ela cometeu o erro de demorar a perceber que aquele modelo tinha vencido. Passou um pouco da hora. Aquele modelo de aquecer a economia via Estado não funcionava mais. e ela demorou um pouco para perceber.

    Ela acha isso?
    Acha, sim, senhora. Pode não dizer com todas as letras e da forma como as pessoas gostariam que ela dissesse, mas ela reconhece isso.

     

    Foto: Sergio Dutti / Veja