• Ofício de homens livres

    Produtores rurais clamam que não se acrescentem incertezas a seu ofício, além das da natureza e dos mercados

    Há exatos 15 dias, começou a primavera no hemisfério Sul, época em que se inicia, para nós, produtores, o calendário agrícola.

    É o momento em que os agricultores consultam o tempo e os mercados para decidir quando semear e o quanto podem produzir para realizar um resultado econômico.

    Ambos –o tempo e os mercados– são circunstâncias de risco, para as quais os prognósticos guardam uma grande margem de incerteza.

    Toda atividade produtiva, em qualquer setor, está sujeita a uma boa dose de incerteza e risco. Mas a agricultura é um caso especial.

    Os avanços da tecnologia não tornaram a produção rural menos dependente do clima, nem as previsões meteorológicas de médio prazo, mais exatas.

    E variações climáticas podem arruinar a produção e destruir um produtor, porque entre nós o alcance de sistemas eficazes de seguro agrícola ainda é muito pequeno.

    Quanto aos mercados, é imensa a diferença entre as previsões de oferta e de demanda para bens industriais ou produtos agrícolas.

    A oferta de produtos industriais pode ser estimada dentro de faixas muito precisas, porque geralmente a produção se dá num grupo limitado de unidades produtoras que, por sua vez, podem cadenciar o ritmo de produção conforme o andamento da demanda. Nesses casos, há sempre um espaço para a coordenação e a decisão de quanto produzir pode se fazer a cada mês, ou mesmo a cada semana.

    Na agricultura, a oferta é realizada por milhares –ou até milhões– de unidades produtivas independentes, distribuídas por vários países do mundo e, deste modo, envolvidas em ambientes climáticos e econômicos diversos.

    E o que é mais importante, a decisão de produzir se dá, no geral, uma única vez por ano.

    Se, ao longo do processo de produção, as condições de mercado se alterarem, não há como flexibilizar a quantidade produzida.

    Restará ao produtor apenas esperar que venham os preços baixos e o prejuízo.

    Os preços que os produtos alcançarão na comercialização é praticamente um enigma. No caso da maioria dos produtos que chegam aos mercados domésticos, para os quais não há contratos negociados em Bolsas, a única referência é o passado recente.

    Mas, de um modo geral, o produtor não tem informações sobre as quantidades que vão ser produzidas e ofertadas pelos concorrentes e, portanto, não tem como fazer uma boa previsão de preços.

    É quase um jogo, cujo resultado pode ser um grande prejuízo.

    No próprio caso das grandes commodities negociadas em Bolsas, os preços são transparentes, mas elas são influenciadas no curto prazo por muitos fatores, sem falar na grande assimetria entre as informações acessíveis aos produtores individuais e aos traders.

    A primavera, portanto, é uma época de esperança no mundo rural, porque o agricultor só se realiza no ato de produzir, mas também um momento de apreensão e de incerteza, o que é inerente à atividade desde tempos imemoriais.

    Essa é a razão pela qual os produtores rurais do mundo inteiro tanto clamam perante a sociedade e o Estado para que não se acrescentem outras incertezas a seu duro ofício, além daquelas que provêm da natureza e dos mercados.

    Impressiona, mesmo para quem atua no setor, a habilidade e a competência extremas do produtor rural brasileiro, não apenas no manejo das variáveis climáticas, financeiras e mercadológicas, como também das contingências da política e da economia mundiais.

    Mas nunca é demais lembrar que os agricultores e pecuaristas esperam do Estado segurança jurídica e liberdade para produzir e vender.

    Aqui mesmo perto de nós, na Argentina, as sucessivas intervenções do governo na liberdade de produzir e vender está minando uma das mais ricas e poderosas agriculturas do planeta.

    E, aqui no Brasil, há ainda quem aceite o capitalismo na indústria e nas finanças, mas sonhe com uma agricultura socialista.

    Se a história é boa conselheira, ninguém deve se esquecer de que a agricultura é ofício de homens livres.

    KÁTIA ABREU, 52, senadora (PMDB-TO), escreve aos sábados nesta coluna, no Jornal Folha de São Paulo
  • Urnas já consagraram o agro

    Nas eleições anteriores candidatos evitavam o agronegócio, mas cenário mudou no pleito deste ano

    Seja qual for o desfecho das eleições de amanhã, um grande vencedor emergirá das urnas: o agronegócio. Em todos os pleitos anteriores, os candidatos evitavam os empresários do meio rural. Eram “retrógrados”, remanescentes de um Brasil “atrasado, escravagista e cruel”, cujo apoio era preciso ocultar.

    Nesta eleição, bem ao contrário, o que se viu foram os candidatos cortejando o agronegócio, reconhecendo-o como sustentáculo da economia, responsável por um terço dos empregos formais do país e pelos superavit da balança comercial.

    O que mudou? Se antes o setor já exibia a pujança atual, por que só agora está sendo reconhecido? Simples: ação política. Antes, o produtor não via necessidade de agir na cena pública e mostrar o que fazia. Não por indiferença à opinião pública, mas por falta de cultura política. Supunha que seu dever se esgotava na produção.

    Nesses termos, tornou-se presa de setores ideológicos, cujo projeto revolucionário almeja estatizar a produção rural. E há nisso toda uma engenharia social: antes de se iniciar o processo de invasões sistemáticas a propriedades produtivas, o setor foi submetido a um processo gramsciano impiedoso de desconstrução de sua imagem.

    Difundiam-se notícias negativas, mesmo falsas (sobretudo as falsas), expunha-se o produtor como infrator das leis, explorador de seus empregados. Em, pouco tempo, criou-se o ambiente para legitimar, a título de represália, um vasto repertório de arbitrariedades. Proclamou-se a ideia de uma profunda crise social no campo, em que as populações indígenas foram expulsas de suas terras e o cidadão urbano, alheio à realidade rural –sobretudo o meio universitário– encheu-se de justa indignação e passou a subscrever manifestos e a aplaudir ações contra quem produzia.

    Assim, a crise, que não existia, passou a existir. A violência impôs-se no ambiente rural, indispondo patrões e empregados. Perdeu com isso o país.

    Diante de tal cenário, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), entidade que representa o setor –de cuja presidência estou licenciada em face das eleições–, decidiu expô-lo. Mostrar o que de fato ocorre e os danos daí advindos não só ao mais moderno setor da economia, mas também ao próprio país.

    Isso é política –a política legítima, necessária, indispensável. Quantos documentários, reportagens, manifestos foram divulgados, mostrando o produtor como predador ambiental, contaminador de alimentos, escravagista e coisas do gênero? Ouvimos por anos, em silêncio ou reagindo pontualmente, a essas agressões.

    Ao assumir a presidência da CNA, em 2008, dei prioridade à ação política. Nada ficaria sem resposta. Mais que isso: seríamos proativos, não apenas defensivos. Passamos a desfazer a mitologia negativa que nos impuseram e a mostrar, com dados rigorosos, a excelência de nosso trabalho, os avanços tecnológicos que permitem aumentar a produção sem aumentar a área plantada.

    Não fosse assim, não teríamos o Código Florestal, vital à segurança jurídica, sem a qual não há investimentos; a área de plantação do país (que é menos de um terço do território) teria sido reduzida e as invasões continuariam sendo aplaudidas.

    Hoje, o brasileiro urbano reconhece esse esforço; tem clara noção de que, graças à competente produção rural, paga comida mais barata e de qualidade. Nos últimos anos, o governo federal e o Congresso Nacional vêm dando grande apoio ao setor agrícola e pecuário. Promoveu as concessões privadas para os portos, viabilizou o Código Florestal e deu início às obras de infraestrutura. Há muito por fazer, não há dúvida. Mas criou-se o ambiente necessário para que se faça.

    Seja quem for o vencedor, repito, não poderá negligenciar a produção agropecuária. Nem mesmo a candidata que forjou sua carreira hostilizando o agronegócio deixa hoje de reconhecer sua primazia. E essa vitória é, acima de tudo, do país. Vamos às urnas!

    KÁTIA ABREU, 52, senadora (PMDB-TO), escreve aos sábados nesta coluna, no jornal Folha de S. Paulo.
  • Desmatamento eleitoreiro

    Fala-se em desmatamento como fosse ato voluntário e arbitrário de destruição, mas a realidade é bem outra

    Na Cúpula do Clima em Nova York, nesta semana, foi anunciado com grande estardalhaço que o Brasil havia se recusado a aderir a um acordo mundial, visando à redução do desmatamento. Não deixa de ser estranho, embora tenha se tornado usual, culpar o Brasil pelo desmatamento em geral, quando somos um dos países mais preservacionistas do planeta. Os que nos criticam não preservam lá o que querem preservar aqui.

    O Brasil conserva 61% de suas vegetações e florestas nativas, chegando a mais de 80% na floresta amazônica. Nenhum país ostenta tais índices, sobretudo os mais desenvolvidos, cujas ONGS se voltam contra nós. Deveriam, isso sim, atuar em seus países-sede para que imitem o nosso país.

    Nosso país tem um instituto que não tem similar no mundo: o da Reserva Legal. Toda propriedade, segundo o bioma em que estiver situada, deve conservar a sua vegetação nativa, mantendo a biodiversidade local. Apenas o manejo sustentável é permitido. Na Amazônia Legal, o índice de conservação via Reserva Legal é de 80% da propriedade, no cerrado, 35%, e, no restante do país, 20%. São índices altíssimos.

    Por que os países desenvolvidos não adotam a Reserva Legal com índices não inferiores a 20%? Seria uma questão mínima de coerência e honestidade, ou estamos diante da hipocrisia. Por que não vociferam contra odesmatamento em seus próprios territórios? A quais interesses respondem?

    A lei também obriga os produtores rurais brasileiros a manter Áreas de Preservação Permanente (APPs) no entorno de cursos d’água, entre outros locais, para proteger as nascentes. Mas quando a CNA lançou –com a Agência Nacional de Águas e a Embrapa– a proposta das APPs mundiais, para que outros países também adotassem essa prática, durante o Fórum Mundial da Água de 2012 em Marselha (França), não recebemos apoio de nenhuma ONG ligada às causas ambientais.

    Novamente a apresentei na Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, e também não vi nenhuma ONG que a defendesse.

    O contexto eleitoral está, também, sendo a ocasião de confusões generalizadas sobre o desmatamento e o próprio significado desta palavra. É uma espécie de ópio ambientalista.

    Há um sentido pejorativo que foi atrelado à palavra desmatamento, como se ela significasse um ato voluntário e arbitrário de destruição da natureza. Embora isto possa ocorrer, sobretudo quando a propriedade não é assegurada, como acontece com os madeireiros ilegais na Amazônia, a realidade é bem outra. Se comemos, é porque a terra foi cultivada e não deixada à sua forma nativa.

    A produção de alimentos não cai do céu, mas é produto de um longo trabalho de cultivo da terra. Belas paisagens cultivadas são o resultado dessa transformação da natureza. O ser humano deve ser alimentado e os alimentos serão cada vez mais demandados no mundo.

    A fome deve necessariamente reduzir, pois o escândalo da pobreza não pode mais ser tolerado. A própria FAO já alertou o mundo sobre a urgência dessa questão. A situação alimentar global não serve para contorcionismos ideológicos.

    As terras terão de ser cultivadas com tecnologia para o aumento de produtividade para atender aos humanos, e o Brasil certamente terá um papel de destaque neste processo, pois já é um dos primeiros países produtores de alimentos e almeja a primeira posição.

    A luta deve ser contra o desmatamento ilegal. Se um proprietário preserva além da Reserva Legal a qual é legalmente obrigado, lhe é facultado cultivar a terra excedente a essa obrigação. É um direito seu, além de atender a uma demanda mundial por alimentos.

    Não podemos ser vítimas de um “desmatamento eleitoreiro”, nem reféns de ONGS nacionais e internacionais, nem cair tampouco na armadilha de países que, para preservar os seus próprios interesses, se voltam contra nós. Desmatam lá e querem a preservação aqui.

    Logo, devemos reformular essa questão do “desmatamento”. Somos sim contra o desmatamento ilegal e totalmente favoráveis a que os países desenvolvidos adotem os mesmos critérios brasileiros da Reserva Legal e da APP, exemplos para o mundo.

    KÁTIA ABREU, 52, senadora (PMDB-TO), escreve aos sábados nesta coluna, no jornal Folha de S. Paulo.
  • Retrocesso

    É motivo de espanto que a disputa presidencial retome a discussão sobre os índices de produtividade do campo
    Alguns insistem em fazer rodar o mundo para trás, como se a sociedade brasileira nada tivesse aprendido nesses últimos anos, se não décadas, de insegurança jurídica. O campo, em particular, foi vítima de inúmeras barbaridades, como as invasões de terras por parte do MST. Os empreendedores rurais viviam aterrorizados e alguns ainda o são, nas invasões indígenas em várias partes do país.
    A memória das ocupações violentas do MST ainda está viva. Era a triste situação de uma paisagem de arbítrio que deveria ser necessariamente mudada. Em vez do conflito, a negociação e a mediação se faziam urgentes.
    Há de se reconhecer que houve avanços significativos. Privilegiou-se, nos últimos anos, a qualificação dos assentamentos da reforma agrária já existentes, abrindo caminho para a sua emancipação. Créditos do Pronaf foram alocados e uma preocupação importante com a qualificação da mão de obra tornou-se política de governo. De nada adianta a desapropriação, se ela resultar na formação de favelas. Assentados da reforma agrária devem se tornar, efetivamente, agricultores familiares voltados para a economia de mercado. Assentamentos devem ser produtivos.
    Espanta-me, portanto, que, em meio ao debate de programas de governo na disputa presidencial, volte à tona uma discussão, ultrapassada, sobre os índices de produtividade. Não há terras improdutivas no Brasil, salvo marginalmente, não constituindo nenhum problema de monta. O campo brasileiro modernizou-se e, neste sentido, fez por seus próprios meios uma revolução que só os representantes do passado teimam em não reconhecer.
    A questão da produtividade simplesmente desapareceu da pauta política, tendo se tornado o agronegócio o grande motor da economia. Onde a segurança jurídica tomou o lugar da insegurança, os empreendedores rurais estão podendo se dedicar plenamente ao trabalho. E com grande sucesso!
    Se essa discussão voltar à tona, conflitos serão inevitáveis. E não faz sentido algum ameaçar um setor que tão bem se comporta econômica e socialmente –e em sua relação com o ambiente.
    Caso eventual arbitrariedade desse tipo vier a se consumar, estaremos diante de um enorme retrocesso. A revisão dos índices de produtividade daria o sinal verde para a arbitrariedade de novas invasões.
    Aliás, algumas perguntas se impõem: por que esse tipo de demanda não se faz a propósito de outros setores da economia? Se a questão é de produtividade, por que não aplicar o critério a todos os setores econômicos? Ninguém é pouco produtivo porque quer. Chegar aos limites máximos de produtividade não é apenas uma escolha. Envolve crédito, garantias, mercado, tecnologias, custos, mão de obra qualificada e capacidade de gestão.
    O país não pode mais conviver com esse tipo de proposta demagógica, cujo único objetivo consiste em trazer insegurança para o campo brasileiro. Devemos olhar para o futuro, e não propor dirigir o país mirando o retrovisor.
    O Brasil moderno tem, no campo, um exemplo de sua competência e eficácia, suprindo não apenas o mercado nacional, mas o mundial. Em escala global, quem pensa no Brasil pensa na pujança do agronegócio. Os últimos números mostram que, além de as exportações de produtos agropecuários garantirem o saldo positivo da nossa balança comercial, agora é o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio que sustenta o PIB nacional no azul.
    Basta ver que o PIB do agro fechou o primeiro semestre acumulando alta de 1,9% em relação a igual período de 2013. Enquanto isso, a soma de todas as riquezas produzidas no Brasil, no comparativo do primeiro semestre deste ano com o do ano anterior, cresceu apenas 0,5%. Não há dúvida de que, suprimindo o agro desta conta, o resultado estaria no vermelho.
    Reintroduzir a discussão de índices de produtividade nada mais significa do que criar obstáculos para que nos tornemos cada vez mais competitivos. Não necessitamos de nenhuma tutela. Muito menos, desta tutela estapafúrdia dos índices de produtividade.
    KÁTIA ABREU, 52, senadora (PMDB-TO), escreve aos sábados jornal Folha de S. Paulo.
  • Falso enigma do RUF tec tec

    Retaguarda da pesquisa universitária é vital para que o agronegócio continue em sua posição de liderança
    Em meio à correria deste setembro vertiginoso, anotei apressadamente na agenda de segunda feira, dia 8: “RUF, tec, tec”. E fui pegar a estrada para os compromissos da campanha no interior do meu Estado, o Tocantins.
    “RUF, tec, tec” era uma anotação pessoal, mas acabou caindo nas mãos de assessores, que logo imaginaram tratar-se de um enigma que deveriam decifrar. Um mistério à la Orson Welles no filme “Cidadão Kane”, em que o personagem pronuncia a palavra “rosebud” instantes antes de morrer.
    À noite, porém, quando os reencontrei em Palmas, todos rimos muito. O suposto enigma não passava de um lembrete para eu não esquecer o impacto que me causara a leitura da versão de 2014 do Ranking Universitário Folha –a que corresponde a sigla RUF.
    Fiz o apontamento, tomando o ranking como uma das referências que desejo ter sempre à mão quando precisar abordar questões da agricultura que envolvam tecnologias (tec) e formação de técnicos (tec). A síntese jornalística do suplemento de 32 páginas, graças aos recursos infográficos, valiam um volume.
    Começando as providências a partir do falso enigma, reclamei informações sobre a Universidade Federal do Ceará (UFC), que inventou, desenvolveu e patenteou uma colheitadeira de legumes e verduras que logo chegará ao mercado, produzida por uma indústria paulista. O capítulo do estimulo à inovação, que está no bojo da grande discussão sobre a vocação maior das universidades para ensino e pesquisa, é outro dado que o ranking procurou estabelecer a partir da análise de resultados.
    Essa façanha da UFC não é gratuita. Os cearenses foram campeões de pedidos de registro de invenções no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), embora as universidades do Sudeste, em conjunto, liderem o setor. Para quem enfrenta desafios do mercado internacional para se manter na liderança de produção e produtividade, que termina na vala comum dos preços nas Bolsas de mercadorias, a retaguarda da pesquisa universitária é extremamente importante.
    Sempre ouço louvores aos avanços tecnológicos da nossa agropecuária, em cujo progresso quase diário disputam as grandes empresas de tecnologia. E nunca me esqueço de que tudo começou com a absorção de conhecimentos nas universidades, especialmente em Minas Gerais e nos Estados Unidos, tendo à frente visionários como Eliseu Alves e Allison Paulinelli, criadores da nossa Embrapa.
    Nesta mesma semana, o ex-ministro Reis Velloso, na Sessão Especial de seu Fórum Nacional, dedicou-se a alertar sobre o fato de que “o Brasil pode ficar de fora da corrida tecnológica” e que, portanto, é “crucial a necessidade de investimento em inovação”.
    Diante do alerta, ocorreu-me um dos produtos mais importantes da atividade acadêmica contida no ranking daFolha: a produção de artigos pelos docentes, cuja disseminação devidamente selecionada, para fazê-los chegar em linguagem acessível e em tempo oportuno aos interessados, deve ser mais bem acompanhada pelos produtores rurais.
    Na realidade, o ranking supera seus números óbvios, como a classificação geral das 192 universidades analisadas e até mesmo a listagem dos dez melhores entre os 40 cursos principais, incluindo o de agronomia.
    Como a ciência quebrou os tabus das especialidades como nunca, a cadeia produtiva do agronegócio também está atenta a áreas diversas como biologia, economia, ciência da computação, engenharia ambiental, engenharia de controle e automação, medicina veterinária, nutrição, matemática. “E por que não termos também um historiador e um filósofo nesta equipe?”
    Foi o que lembrei outro dia no Senado, num debate sobre legislação trabalhista. Precisei me explicar, ressaltando o argumento de que as leis, por mais que expressem definições da ciência e da tecnologia, não dispensam o tempero humanístico.
    A mistura é valiosa, pois não se produz inovação segmentando áreas do conhecimento. E, como bem demonstra a realidade, a universidade é o caminho da conjugação da ciência e da tecnologia com o humanismo.
    KÁTIA ABREU, 52, senadora (PMDB-TO), escreve aos sábados no
    jornal Folha de S. Paulo
  • Excluindo o protagonista

    Adiar o Censo Agropecuário é decisão que deixa homem do campo sem dados para planejar futuro melhor
    Os gregos, que há mais de dois mil anos inventaram a modernidade e que, por mais que façamos, não conseguimos superar, demonstraram também que, para entender a realidade, é indispensável identificar o que de fato a conduz. Toda atenção é pouca para o ator que está no centro da cena e cuja atuação decide o destino de todos.
    E quem não presta atenção aos protagonistas não consegue entender as tragédias e as comédias. Muito menos a história.
    Esta foi uma das primeiras lições que aprendi, como líder de setor, e que me fez estarrecer nesta semana, por causa da notícia do adiamento do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Prevista para o ano que vem, a pesquisa foi deixada de lado por falta de recursos, num sinal de que há outras prioridades estatísticas.
    Essa decisão significa, simplesmente, que o atual protagonista da economia brasileira, cujos resultados contribuem de forma decisiva para conter os efeitos da crise e melhorar as contas e a performance do país, deixará de ter processadas informações fundamentais para planejar futuro ainda mais promissor.
    É mais do que hora de atualizar a fotografia do “quem produz o que no campo”. Precisamos ampliar o foco para onde estão e como vivem esses produtores, de modo a esmiuçar não só os aspectos humanos e sociais –como educação e saúde–, mas também os ambientais e relativos a produção, tecnologia, produtividade e situação fundiária.
    Dados atuais da realidade são matéria-prima preciosa e insubstituível para definir políticas e investimentos públicos e privados e orientar a extensão rural, levando conhecimento ao homem do campo.
    Esperamos ansiosos pelo Censo Agropecuário de 2015, pois o último data de uma década atrás e não nos serve de bússola, posto que a imagem ali projetada não corresponde ao que somos. Naqueles tempos, o Brasil dependia menos do agro para garantir o saldo positivo de sua balança comercial, embora já trabalhássemos no azul, com US$ 38,5 bilhões de superavit.
    Hoje, porém, o agronegócio é responsável por 44% das exportações brasileiras e, sem a contribuição do setor, a balança comercial teria fechado com deficit de US$ 80 bilhões no ano passado.
    Nesse mesmo período, a safra de grãos –principal item da pauta de exportação– ficou 68% maior, enquanto a área plantada cresceu apenas 16%, com o aproveitamento de pastagens degradadas.
    A formidável engrenagem de que dependem as colheitas envolve compulsoriamente toda a sociedade, a começar pelo elementar: quem não é consumidor de alimentos, afinal? A produção rural e o sucesso do agronegócio pressupõem acerto nas políticas públicas, infraestrutura, regras estáveis e agências de controle. E todas as formulações são condicionadas a dados estatísticos, como as séries históricas, essenciais ao estabelecimento de índices e ao planejamento.
    Sem o censo de 2015, o segmento econômico mais competitivo do Brasil se vê jogado na contramão da racionalidade.
    O anúncio do IBGE de que seu orçamento foi reduzido para R$ 204 milhões –menos de um terço do que havia proposto– explica a necessidade de corte dos programas previstos para o ano que vem. Mas registre-se: Não justifica a eleição do Censo Agropecuário para o sacrifício.
    Primeiro, porque não é um item arbitrário do rol de estatísticas nacionais. Faz parte da agenda de todo o sistema de planejamento agropecuário, público e privado. Segundo, porque é um golpe no setor mais ativo e produtivo da nossa economia, que será atendido, sabe-se lá por quanto tempo mais, por programas embasados em estatísticas defasadas.
    Por isso, o Censo Agropecuário de 2015 não pode ser postergado. O protagonismo da agricultura não está disponível para contestações. É um fato irrecusável, como se vê quando os setores mais obscurantistas no combate a avanços tecnológicos universais, como os transgênicos, baixam humildemente sua arrogância nestes tempos de campanha eleitoral.
    Não faz sentido que faltem recursos ao IBGE para instrumentalizar com informações o setor mais dinâmico da economia, cujo enfraquecimento tornaria impossível o fechamento das contas nacionais.
    KÁTIA ABREU, 52, senadora (PMDB-TO), escreve aos sábados nesta coluna,  jornal Folha de S. Paulo
  • Política contra o progresso

    Apesar do ambientalismo fundamentalista, o agro é o que é: uma ilha de competitividade
    Durante 4.000 anos, tanto a população quanto a economia do mundo praticamente não cresceram.
    Os padrões de bem-estar, salvo algumas oscilações, permaneceram basicamente inalterados para a quase totalidade dos seres humanos até que, a partir do século 18, os avanços da ciência e da técnica tornaram possível o crescimento das populações e das economias. Na perspectiva da longa história do homem, o crescimento econômico é fato relativamente recente.
    Dos anos 1700 até agora, todo o mundo cresceu e progrediu, mas alguns países cresceram muito mais que os outros. As razões das diferenças são objeto de muita discussão e controvérsia, mas um ponto é pacífico: cresceram mais as economias em que a aplicação de novas tecnologias alavancou o aumento da produtividade.
    O aumento das populações também contribuiu para esse processo, mas hoje esse fator praticamente se esgotou, pois tanto nos países ricos quanto nos emergentes elas deixaram de crescer. Daqui em diante, quase todo o crescimento econô- mico vai depender do aumento da produtividade.
    Aumento da produtividade significa, especialmente, adoção de novas tecnologias que permitam obter mais produto com a mesma quantidade de trabalho ou de outros fatores produtivos, como a terra.
    A economia brasileira parece enredada numa situação de baixo crescimento, com muitos setores perdendo até a capacidade de competir com o exterior. Isso é grave, pois nenhuma economia consegue se proteger completamente da competição externa. A exceção, aqui, é a produção rural, que há 40 anos experimenta grandes saltos de produtividade.
    Produzimos cada vez mais, com menos trabalho e sem aumentar a terra cultivada. Isso foi obtido com grandes doses de novas tecnologias, representadas por novas sementes, aplicação racional de fertilizantes e defensivos agrícolas, novos equipamentos e aproveitamento dos progressos da biotecnologia.
    Os países ricos da Europa podem se dar ao luxo de crescer pouco porque têm populações pequenas e quase declinantes e uma renda por habitante de US$ 40 mil a US$ 50 mil. A maior parte do mundo está longe desses padrões. Precisa crescer, e muito, para propi- ciar níveis civilizados de bem-estar material.
    No entanto, existem na socie- dade brasileira segmentos influentes, cujo pensamento tem suas matrizes nesses países, tais como a Holanda, a Dinamarca ou a Suécia, que não precisam mais crescer e até mesmo prefeririam uma economia estacionária, especialmente a agricultura e a pecuária, que, de acordo com eles, competem com a paisagem natural.
    E esse pensamento, quando infiltrado nas esferas públicas de decisão, faz o que pode para tornar a nossa agricultura também estacionária, seja usando mais métodos tradicionais de cultivo, reduzindo a aplicação de insumos modernos e, sobretudo, fechando a porta para novos recursos da biotecnologia, especialmente os transgênicos.
    Os Estados Unidos adotam amplamente os materiais transgênicos e são líderes incontestáveis de produtividade agrícola. O Brasil chegou a essas tecnologias com mais de dez anos de atraso, em razão da oposição que grupos ambientalistas, alguns com matriz nos países ricos da Europa, conseguiram mobilizar, aproveitando-se da ocupação de posições estratégicas no Estado brasileiro.
    Primeiro trataram de proibir as pesquisas, por meio de regulamentações bizantinas expedidas pelo Ibama, que demorava de quatro a seis anos para autorizar um simples experimento de 500 metros quadrados. Depois, exigindo uma série de licenças ambientais que jamais eram concedidas e, finalmente, fixando quórum de dois terços para a aprovação de novas sementes na CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança).
    Todos esses entraves foram pacientemente vencidos com a participação do Congresso Nacional e até do presidente Lula, que se recusou a vetar a nova legislação, como lhe recomendara o Ministério do Meio Ambiente em 2005.
    O ambientalismo fundamentalista tem colocado pedras no nosso caminho e já nos atrasou em mais de uma década. Apesar dele, porém, o agro é o que é: uma ilha de competitividade, que faz uma das maiores agriculturas do planeta.
    KÁTIA ABREU, 52, senadora (PMDB-TO), escreve aos sábados nesta coluna, no jornal Folha de S. Paulo.
  • As lições de Carlos Lacerda

    Goste-se ou não, Lacerda marcou 4 décadas de nossa política, sendo que ao menos duas como protagonista
    A escassez de lideranças políticas no Brasil, evocada com o trágico desaparecimento de Eduardo Campos, remete a uma reflexão sobre nosso passado, em que talvez se encontrem algumas explicações para tal fenômeno.
    A verdade é que as grandes lideranças políticas nacionais, recentes e remotas, nem sempre desfrutaram em vida do prestígio “post mortem”. E isso porque a política, entre nós, foi sempre, com maior ou menor intensidade, uma atividade malvista e difamada.
    Nosso primeiro imperador, d. Pedro 1º, abdicou; seu sucessor, d. Pedro 2º, foi deposto e exilado em 24 horas. Nosso primeiro presidente da República, marechal Deodoro da Fonseca, renunciou, e o primeiro presidente eleito, Prudente de Moras, foi vítima de uma tentativa de assassinato.
    Ruy Barbosa, “o maior dos brasileiros”, foi acusado de ter roubado as estantes do Ministério da Fazenda, porque as de sua casa ostentavam as iniciais “RB”, que se referiam obviamente às iniciais de seu nome, mas que os adversários afirmavam significar “República Brasileira”, nome que o país jamais teve.
    Os exemplos não se esgotam aí, mas esses servem como mostruário. Todos os citados tiveram seus méritos reconhecidos pela posteridade, nem sempre pelos contemporâneos. É claro que tal ambiente, que só se agravou, não encoraja o surgimento de novos talentos. As pessoas de bem não querem ser difamadas; as sem escrúpulos não se importam, desde que se mantenham longe dos tribunais –e próximas do poder.
    Em abril deste ano, registrou-se o centenário de nascimento de uma das maiores lideranças republicanas –Carlos Lacerda. Sua presença, goste-se ou não, marcou quatro décadas de nossa política, sendo que pelo menos em duas como protagonista. Tinha ideias e não receava defendê-las, quer na imprensa, como um dos maiores jornalistas que o país já teve, quer no Parlamento, como um dos maiores tribunos que já o integraram.
    Tinha talento, coragem e vocação –e pagou caro por isso. Entre seus pecados, não estava o de esconder o jogo. Iniciou-se na vida pública como esquerdista, seguindo a tradição do pai, Maurício de Lacerda, de quem herdou a vocação e a natureza arrojada. Fez parte do PCB, do qual acabou saindo, em meio a acusações recíprocas. Tornou-se, na sequência, um liberal católico, termo em desuso, já que os católicos que hoje entram na política o fazem pela porta esquerda da Teologia da Libertação.
    Foi peça-chave em dois momentos decisivos da política brasilei- ra no século passado: no ocaso do governo Vargas, cujo suicídio, em agosto de 1954, deu-se duas semanas depois de um atentado a bala que sofreu por parte de integran- tes da Guarda Pessoal da Presidência; e na deposição de João Goulart, em 1964.
    O golpe que apoiou acabaria por lhe encerrar abruptamente a carreira. Estava, como lembrou o jornalista Otavio Frias Filho em brilhante ensaio publicado na revista “Piauí”, prestes a empalmar a Presidência da República, meta para a qual se preparara ao longo de toda a vida.
    Mas Presidência é destino. Lacerda, que havia passado com êxito pelo governo do Estado da Guanabara (é reconhecido, até pelos adversários, como um dos melhores administradores que a cidade já teve), tinha todas as credenciais para chegar ao topo –inclusive polí- ticas, já que as forças que triunfaram em 1964 o tiveram como líder e referência.
    Mas seu talento e apetite político assustavam até os aliados. As eleições presidenciais de 1965, compromisso inicial dos militares, foram canceladas. Lacerda tornou-se novamente oposição. E não hesitou em procurar os antigos adversários –Jango e Juscelino– para articular uma Frente Ampla contra a ditadura. Foi cassado em 1968, aos 54 anos, preso e banido da vida pública pelo AI-5, proibido até de escrever em jornais.
    Abominava o rótulo “país do futuro”; queria cumpri-lo no presente, e a política era –e é– a única via. Fica de sua memória esta lição: o Brasil precisa romper o falso paradigma de que política é sinônimo de podridão, o que só favorece os maus políticos –e impede que vocações legítimas como a de Lacerda voltem a habitar a vida pública.
    KÁTIA ABREU, 52, senadora (PMDB-TO), escreve aos sábados nesta coluna, no jornal Folha de S. Paulo.
  • A falência bolivariana

    O Brasil está atado, no Mercosul, a países que estão se precipitando rumo ao abismo ‘socialista’
    Para quem tinha ainda alguma fantasia sobre a ressurgência do comunismo em nosso tempo, travestido de “socialismo do século 21”, a frustração não poderia ser mais completa.
    O peso da realidade mais uma vez se impôs, como se pessoas e partidos políticos nada tivessem aprendido com as experiências soviética, do Leste Europeu, da China maoista e de outros países. A fantasia tornou-se o fantasma que assombra a América Latina e, infelizmente, certos partidos políticos entre nós.
    Cuba, farol dessa esquerda retrógrada, é um país empobrecido que, em seus melhores momentos, viveu somente da mesada da ex-União Soviética. Posteriormente, sua mesada foi substituída pelo petróleo barato enviado pelo ex-ditador Hugo Chávez.
    A falência econômica é manifesta, sendo acompanhada por uma feroz ditadura que nada conce- de em termos de liberdade de expressão, imprensa e circulação. Os direitos humanos são sistema- ticamente pisoteados nessa ilha, tornada uma prisão. Não deixa de surpreender que atraia, ainda, adeptos em nosso país. A única explicação residiria no atraso ideológico das agremiações brasileiras de esquerda.
    A Venezuela inovou em seu socialismo. Em vez da conquista violenta do poder, optou por eleições que têm como único objetivo subverter a democracia por meios democráticos. Conseguiu, dessa maneira, captar a simpatia dos comunistas/socialistas brasileiros, em falta de ideias e orientação.
    De resto, está seguindo a cartilha cubana e “socialista” em geral. O resultado salta à vista. A liberdade de imprensa está sendo sistematicamente aniquilada, a oposição é violentamente perseguida e adversários políticos são considerados inimigos a serem encarcerados.
    O Poder Judiciário torna-se uma pantomina a serviço do Poder Executivo. A economia está em frangalhos. A desorganização produtiva é total. Falta até papel higiênico. Só uma expressão pode nomear o que está ocorrendo: falência completa.
    A Argentina, em sua muito especial mescla de peronismo e bolivarianismo, está levando o populis- mo econômico a seu grau máximo de radicalização, acompanhado de severas restrições à liberdade de imprensa e dos meios de comunicação em geral.
    De grande parceiro econômico, tornou-se um empecilho à própria expansão da economia brasileira. Atualmente, o país encontra-se novamente em situação de calote, depois de uma negociação forçada de um calote anterior. Ou seja, fundos e credores que não seguiram essa imposição autoritária tiveram, agora, ganho de causa em um tribunal americano.
    Se a situação argentina já era ruim, ficou ainda pior. Não é a retórica populista que tirará nosso vizinho do poço.
    Ocorre, contudo, que esses vizinhos são membros do Mercosul e nossos parceiros em qualquer negociação bilateral que o Brasil faça ou planeje fazer. O Brasil está atado a países que estão se precipitando rumo ao abismo “socialista”.
    O comércio, que deveria ser o eixo-mor dessa associação, tornou-se completamente secundário, como se não fosse ele o seu objetivo central. As reuniões do Mercosul converteram-se em simples fóruns inúteis, palcos de agressivos discursos antieconomia de mercado ou anti-Estados Unidos, segundo a cartilha anti-imperialista.
    O foco econômico é, hoje, político, sobretudo voltado para a defesa das posições argentinas e venezuelanas, conforme os delírios ideológicos que lhes são característicos.
    Não é mais possível o país atrelar o seu futuro a um Mercosul populista, pois teremos apenas o fracasso coletivo daquilo que já é a falência individual desses países.
    Urge que o(a) próximo(a) presidente da República reveja as orientações que têm presidido a nossa política externa. Entre elas, impõe-se que essa entidade volte a ser um mercado comum, comercial, e não uma associação aduaneira.
    Se nem para o comércio serve plenamente, dadas as restrições existentes em nossos vizinhos, como esses Estados podem agir como um bloco? Não estaremos substituindo a realidade pela ficção ideológica?
    KÁTIA ABREU, 52, senadora (PMDB-TO), escreve aos sábados nesta coluna, no jornal Folha de S. Paulo.
  • Artigo: Os candidatos à Presidência mostram reconhecer a importância do papel do agronegócio no país

    Sei que, para os brasileiros de hoje, chega a ser difícil imaginar o velho Brasil importador de alimentos. Afinal, o que vemos agora é uma agropecuária poderosa, uma das maiores do planeta.
    Mas, há 40 anos, nossa agricultura era um grande problema, com a produção crescendo pouco e não conseguindo acompanhar o crescimento da população. Muito diferente do nosso atual mercado doméstico, plenamente suprido de grãos, carnes, oleaginosas, frutas, verduras, etanol. Tudo em grande quantidade e qualidade e a preços reais que vêm declinando, sistematicamente, há duas décadas.
    A cada dia, o brasileiro médio gasta uma proporção menor de sua renda com alimentos, podendo consumir mais bens industriais e serviços, como educação e entretenimento. E, de um certo modo, conside- ra-se que o mundo, no futuro pró- ximo, só não viverá uma grande crise de abastecimento de produtos agrícolas em razão do potencial de crescimento sustentável da produção brasileira.
    Essa transformação logicamente não se deu por um passe de mágica. Custou tempo, dinheiro e muito trabalho. Mas aqui não é a hora para contar essa história. É bom lembrar apenas que foi quase sempre uma revolução silenciosa, mal percebida pela população e até pelos governos.
    O mundo do agronegócio, com suas complexas cadeias que se estendem da produção nas fazendas e nos sítios até as plantas industriais modernas e plataformas de comercialização, foi até há pouco um mundo à parte, não incluído nas mídias ou na política. Todos os que pertencemos ao setor sempre nos amarguramos por isso. Mas, hoje, parece que a realidade se impôs.
    A prova disso é o encontro que a CNA promoveu entre as lideranças do setor e os três principais candidatos à Presidência da República no dia 6. Todos compareceram, diferentemente de quatro anos atrás. E mostraram que levaram a sério o documento que continha nossa visão dos problemas que vivemos e das expectativas que nutrimos para o futuro.
    De um modo geral, ficamos satisfeitos com todos os depoimentos, bem como com as posições que cada candidato manifestou, respondendo às questões que lhes foram apresentadas.
    O candidato Eduardo Campos mostrou uma genuína admiração pelos feitos do agronegócio e reconheceu, com clareza, que o setor merece apoio. Prometeu reforçar o Ministério da Agricultura e livrá-lo dos balcões da política partidária.
    Considerou positivo o novo Código Florestal, ressaltando que se trata de uma legislação equilibrada que não buscou atender a apenas um ou outro setor, mas ao conjunto dos interesses em jogo. Falou de um futuro construído por meio do diálogo e apoiado na ciência. Foram palavras que nos agradaram.
    O senador Aécio Neves, da mesma forma, reconheceu o papel vital do agronegócio para a economia, prometendo transformar o Ministério da Agricultura em um superministério com a mesma importância estratégica da Fazenda e do Planejamento, baseado na capacidade técnica de quadros profissionais.
    Prometeu nos dar segurança jurídica contra invasões de terra e outras ameaças ao direito de propriedade, inclusive provenientes de demarcações de terras indígenas ao arrepio da nossa Constituição. Disse palavras que nos agradaram.
    Por fim, a presidente Dilma Rousseff mostrou, com números e dados, as ações do governo em benefí- cio do agro, seja em termos de política agrícola, seja nos grandes programas de infraestrutura que estão em andamento, como os novos regimes de cooperação com a iniciativa privada.
    Proclamou que dará priorida- de às ferrovias e, sobretudo, às hidrovias e que o regime da nossa navegação de cabotagem precisa ser mudado. Mostrou, também, sensibilidade para os nossos problemas de segurança legal. Foram palavras que não podiam deixar de nos agradar.
    O que ficou de tudo isso foi o reconhecimento de nossa existência: o agro chegou, finalmente, ao topo da agenda nacional. Espero que tenha chegado para ficar.
    KÁTIA ABREU, 52, senadora (PMDB-TO) e presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), escreve aos sábados nesta coluna, do jornal  Folha de S. Paulo
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